quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Queria não Querer



Queria poder fugir para longe do meu corpo. Segurar outras mãos, voar livre da minha consciência. Queria dançar com pernas que não as minhas, sorrir com lábios de outrem. Queria que outros pés me levassem para longe e outros olhos vissem mais que estes que trago cegos. 
Queria ser o que não sou, ou ser apenas nada e nada ter que ser. Queria apagar os sonhos e misturar os desejos com o esquecimento. Queria viver uma impossibilidade só para fugir do que é possível. Queria que houvesse mais tempo escondido e menos certeza de que preciso dele. 
Queria não sentir esta inquietação que me incha as veias de veneno e vai escorrendo por onde consegue. Queria que tudo parasse, se calasse, queria descobrir que na quietude há paz.
Queria não querer tudo o que quero, e simplesmente contentar-me com o que o convencional acha que devo. E a saber, queria apenas não saber que a cada dia que passa menos sei e mais confusas e incertas se tornam as certezas.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Julius Von Klever (1850-1924) Erlkönig; around 1887