domingo, 13 de novembro de 2016

A Multidão


No meio daquela multidão tão barulhenta até os surdos eram capazes de ouvir. Esmagados e exasperados até os cegos julgavam ver. E sem ter para onde fugir até os insensíveis sentiam. Os crentes esgotavam as rezas e os não-crentes rendiam-se à retórica vazia das crenças. 
Havia um mal comum entre a multidão que a todos afligia e a todos tornava incapazes. Era a consciência de serem multidão. Não o soubessem e alegremente continuariam a caminhar surdos, cegos, insensíveis. 
Mas a consciência apenas lhes dava a certeza de existir, e para além disso, nada mais. Apenas incertezas, questões que ninguém sabia responder. Tinham a consciência de existir e sofriam por isso. 
Como a marcha dos ignorantes não abrandasse, os mais agressivos acotovelavam os seus semelhantes tentando ganhar espaço. Queriam respirar, ser livres do suor dos que os acompanhavam e se roçavam impiedosamente na pele deles. 
Alguns caiam e iam ficando para trás, para sistematicamente serem espezinhados pela multidão. Ninguém parecia notar ou demonstrar qualquer perturbação, e a marcha rapidamente retomava o ritmo. 
Entre escaramuças e períodos de paz a multidão acabou por chegar ao fim da estrada, sem conseguirem ir para além da consciência de existir, e sem perceberem que esta acabava num precipício. 
E assim, dormente de ignorância e estupidez, a multidão foi-se deixando engolir pelo precipício. Aos poucos todos desapareceram, a estrada ficou em silêncio e a luz voltou a brilhar.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Fabio Mesa, Buscadores de sueños (Dream Seekers)