terça-feira, 19 de julho de 2016

Quando assim a viu passar


Deixou-se ficar, imóvel, como se o tempo já não importasse assim tanto. 
Deixou-se ficar e devagarinho enlevar por quem à sua volta o vento levantava
Era cómodo observar, era mais fácil ficar a ver e de leve, como quem sabe que ninguém percebe, esboçar sorrisos dissimulados quando alguém tropeçava, ou outro assim mais não se levantava. 
Deixou-se ficar até que ela passou. 
Caminhava como se dançasse, mas na simplicidade com que o fazia punha cuidadoso desvelo. Eram cândidos os seus gestos, mas se assim seria o coração também, era incógnita de difícil desvenda. 
Ficou na dúvida se a seguiria. Por que não, afinal? Que mal poderia dali advir? 
Ela caminhava devagar, como quem pesa cada passo por medo de cair. 
Ela sentiu-lhe o olhar e desviou o seu da calçada para que embatesse no de quem assim a observava. 
Fingiu surpresa e corou de emoção, e como quem convida sem o fazer ainda assim, sorriu a quem de longe lhe lançava olhares de admiração. 
Estendeu-lhe a mão, mas quando quem até então se prostrara em profunda e imutável observação se predispunha a corresponder a tão inesperado convite, eis que um outro que de longe chegara entretanto, nela tropeça e com ela cai no chão. 
Quem assim se mantinha imóvel e displicente para com o tempo, assim se manteve sorrindo de quando em quando, daqueles que via caírem e não mais se levantarem do chão.

Sónia Ferraz da Cunha
ImagemIsabelle Huppert