quinta-feira, 24 de março de 2016

Entrar ou sair


Entrava e saía, voltava a entrar e depois saía outra vez. Queria poder estar lá dentro enquanto ficava cá fora. Gostava da sensação de estar num e noutro sítio, disso ou de se balancear entre os dois estados porque ambos lhe provocavam náuseas. Talvez odiasse um e outro, e apenas se esquecesse disso enquanto mudava de lugar.
Algum tempo atrás, não se lembrava se há uns minutos, horas, dias, meses ou anos, chegara a uma decisão final; escolhera sair ou entrar, mas já não se recordava qual o veredito.
Via-se incapaz de chamar à memória a conclusão a que chegara, como tal fazia testes. Entrava e saía. Aos poucos percebeu que o corpo se sentia cansado, talvez já andasse naquilo há séculos.
Subitamente acreditou lembrar-se que escolhera entrar, então entrou com vontade de ficar, mas sentiu-se asfixiar por falta de oxigénio. Então optou por sair, mas sentiu-se sufocar por excesso de oxigénio.
Por entre o seu buliçoso vai e vem distinguia como outros iam entrando e outros tantos saindo, e como uns e os outros se acomodavam de um ou de outro lado. Parecia fácil e todos se viam felizes.
Era simples, portanto, só tinha que escolher entrar ou sair e fazê-lo em definitivo. Contudo, teria sido mais fácil criar um universo que finalizar aquele dilema.
Por que paraste? Pensas que se parares o tempo para contigo? Não sabia dizer se a questão viera do interior ou do exterior, nem tão-pouco de que interior ou que exterior, pois talvez tivesse nascido na sua própria cabeça.
Mas aos poucos e a espaços, de dentro e de fora escutavam-se outras interrogações, outras sentenças, recriminações, avisos, chamamentos e acusações, que apenas acrescentavam confusão à sua mente onde a perturbação há muito se instalara.
Era um marulhar de vozes sem fim.
Devias ter entrado quando ainda eras jovem
Devias ter saído quando tiveste oportunidade
Agora é tarde
Ainda há tempo
Vem cá para dentro
Sai
Entra
Sabia que se continuasse a ouvir aquelas vozes enlouqueceria, ou pior, perderia de vista a sua vontade. Vontade à qual há muito desconhecia a tendência.
Há muito arrastava a indecisão, a dúvida. Há muito que hesitar se tornara num hábito. Então chegou a uma nova decisão. Havia apenas uma solução, e era voltar ao estado inicial, ao momento em que começara toda aquela loucura. Retrocederia até ao 0 e aí saberia o que fazer. Mas havia um problema - já não se recordava de qual fora o estado inicial.


Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Gérard Uféras, Orphée et Eurydice de Pina Bausch, ballet de l’Opéra National de Paris