quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O dia do fim


No dia em que o coração saltou um batimento e a cabeça não se importou soube que a luta acabara; tinha sido derrotado. Já não havia desespero ou medo, já não havia emoção. Estava vazio, seco, oco. Apenas restava desapego e uma visão que perturbada não distinguia senão borrões. Algo lhe sugara o que outrora abundara, e fosse o que fosse, jazia também a uma esquina daquele lugar.
De espírito inquisitivo ponderou qual a verdadeira razão pela qual não se havia incomodado com o coração que já não batia certeiro. Estaria realmente desprovido de emoções? Seria isso mau? Mas ver para além da parcial cegueira que aflige é quase impossível, então tentou focar naquilo que lhe sugara o que outrora abundara e cego ficou completamente.
A falta dos olhos também não o afligiu, e antes pareceu-lhe até útil. Agora não via o que não sentia e não sentia nada. Mas o coração continuava a bombear, metrónomo instrumento, absurdo contratempo. O sangue corria pelo corpo pedindo em desespero por liberdade. E ele, atendendo ao pedido, arrancou-o das veias e deixou-o vaguear em abundância por aquele lugar.

Sónia Ferraz da Cunha