sábado, 23 de janeiro de 2016

A morte é o meu talismã


E se tudo o que existe seja isto, e se os cínicos tiverem razão e as consciências se apagam assim que a matéria perde o favor da vida? E se para além disto houver apenas silêncio eterno, nada, o vazio que assusta e atormenta apenas. E se para além da dor não existir nada? E se para além da vida houver apenas morte? Consegues imaginar o nada? Não, eu também não. Será o vácuo o último dos nossos destinos? Será o nada o que nos espera? Num último fio de vida acende-se a luz do que passou, tudo e todos serpenteiam ante os teus olhos, tudo e todos exceto o que te espera. E assim que a luz se apaga, vem a escuridão. Deixas de pensar, de sentir, deixas de existir e tudo o que evoluíste até então, tudo o que aprendeste até esse momento, perde-se em menos de uma batida de um coração que não mais pulsará! Será assim? E se assim é, por que choras agora? E se assim é, porque morres em vez de viver? Por que te matas, te consomes, te recusas a viver? Não me olhes como a um monstro se o monstro não vive senão no deserto que é a tua estupidez. Mas não é a tua inconsciência que merece reprovação, pois maldita é a consciência que atormenta e inquieta os espíritos que nunca dormem. Essa ignóbil criação da matéria que a tão poucos rouba a inocência. Descansa na tua pureza, ó doce dormência, e morre na ignorância, pois só assim morrerás feliz.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Bela Lugosi do filme The Raven (1935)