terça-feira, 28 de julho de 2015

Porquê?


Por que adornas o corpo com tão brilhantes adereços e permites que a alma se asfixie no lixo?
Por que esbugalhas os olhos quando te apresentam ficção e os cerras estupidamente perante a realidade?
Por que pulsa o teu coração se o teu cérebro há muito adormeceu por completo?
Por que corres contra o tempo se não te fazes capaz de o aproveitar?
Por que enches as entranhas com a gula se há muito estas apodreceram?
Por que te queixas, pedes, imploras, pensas que sofres talvez, quando por ti sofrem muito mais, quando por ti se mata, mutila, esventra, tortura, aniquila, extingue?
Porquê?
Eu digo-te o porquê.
Porque não te questionas. Porque és um ser ignóbil, um imbecil patético e acabado.
Porque calas, consentes, aceitas e és cobarde.
Porque sofres de idiotice crónica e quando assim não é, pior se apresenta a equação.
Porque te foi dado o dom, o poder, a capacidade, e o que fazes tu?
Definha até à morte nessa tua perpétua existência que nada é, que nada faz, que nada fará, que nada representa.
A tua inutilidade rapidamente será esquecida, contudo, o rasto de miséria, sangue, dor, e esse cheiro a morte putrefacta jamais será apagado.
E enquanto deres os últimos e definitivos passos rumo ao inferno que te aguarda, espero que num último sopro de consciência escutes os gritos, as súplicas, os uivos, os grunhidos, os lamentos abafados pela ausência dessa consciência, de ética, de moral, de coração, de alma, de sentimentos, de emoções, pela falta de tudo onde nunca faltou crueldade.

Sónia Ferraz da Cunha