sábado, 18 de julho de 2015

A Sinfonia dos Moribundos


A noite corria negra, vazia, eterna e no seu bafo gelado e seco, corpos eram copiosamente atirados ao acaso, empilhados sem cuidado, separados em descuido. Por entre gritos agonizantes, suspiros rasgavam a pungência com a sua suavidade, uma delicadeza de quem definha, fraqueza de moribundo.
Ajuda-nos, Por favor, ajuda-me!
Por entre rezas indecifráveis, um choro anunciava que mais uma criatura nascia para as trevas. A sinfonia era rigorosa e ininterruptamente interpretada, sem alegretos, allegros ou prestos.
O vento soprava com violência e afincava a sua supremacia cortando a pele, a carne, o osso, por vezes as entranhas, definitivamente a alma. Do bafo gelado da noite saíam agora lâminas afiadas que rapidamente se viam pingentes de sangue.
Os gritos, as preces, os murmúrios desesperados, as pragas rogadas, as blasfémias proferidas aos privilegiados pertenciam, enquanto os mudos, os inarticulados se agarravam aos ouvidos encolhendo-se, diminuindo de tamanho, acocorados, apertados contra si mesmos no chão imundo pelas suas dores, pelo seu sangue, pelos seus excrementos.
Das entranhas geladas e negras da noite vazava um novo ser que pela primeira vez via as trevas, e eu perguntei aos olhos que tudo viam, aos ouvidos que tudo ouviam, aos braços que nada faziam e à boca que assim calava.
Porquê?
Ao som daquela palavra, os olhos que tudo viam rodaram lentamente e sobre mim pousaram, gelados, vazios, negros e eternos. A boca que assim calava sofreu um sardónico sorriso, e abrindo-se lentamente, sentenciou:
Pensas demais, vai dormir!

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Lithops - Nicola Samori