quarta-feira, 17 de junho de 2015

As Mãos e a Cabeça


Havia sempre qualquer coisa, e aqui a utilização do ‘sempre’ tornava-se inevitável.
Havia sempre qualquer coisa, dizia, pensava, desabafava à luz que perpassava através de uma janela e que tão tímida se tornara. Fossem uma palavra desconcertada ou infinitas afirmações que baralhavam, confundiam, atrapalhavam, tudo se acumulava em segundos e em menos que isso lhe prostravam o discernimento.
Levou as mãos à cabeça, cobriu com elas os ouvidos, afinal havia muito mais que qualquer coisa e o barulho ensurdecedor de todas essas coisas enfureceu-lhe os pensamentos, e cravou-lhe no peito despiedadas e pungentes dores despidas de crime.
Ousara clamar por paz, como se lhe fosse dado o esperar por clemência, como se houvesse quem – visível ou invisível – prestasse tal clemência. Mas a fantasia, como tudo o demais, tem limites, e todos sabem que se ultrapassados esses limites corre-se o risco que agora aquelas mãos furiosamente enterradas nos cabelos daquela cabeça viviam – a loucura!
Mas se todos sabiam, todos poderiam ter-lhe feito saber do que havia para saber. Todos poderiam com aquelas mãos e aquela cabeça, ter partilhado da sua imensa sabedoria.
Mas para aquelas mãos e aquela cabeça, os todos não eram senão ilustres desconhecidos, ou imundos conhecidos, ou apenas um par de olhos incisivos que ao mesmo tempo olham apáticos, como querendo dizer algo e, no entanto, nada dizendo, em paz descansam no seu próprio silêncio.
As mãos soltaram a cabeça. Aos poucos a escuridão venceu a tímida e resiliente luz, da mesma forma que o conformismo à loucura acabaria por vencer a pouca e tímida lucidez que ainda sobrevivia naquela cabeça. 

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Peter Hardstone, Sorrow, 1991