sábado, 21 de março de 2015

A Fera


Inspira e expira, mais uma vez, as vezes que forem necessárias, implorou ele, outra vez. Tínhamos acabado de jantar, ou apenas acabado de beber, ou apenas acabado de imaginar que o fazíamos, tanto melhor, tanto pior. E lá estávamos os dois sentados à mesa, nem de pé, nem deitados.
Eventualmente vai acontecer, sentenciou ele. Ah! nisso acreditou John Marcher, e no final, no final nada… Disse-lhe eu.
Torceu o nariz, não sabia quem era John Marcher, e eu não sentira vontade de lhe explicar que John Marcher fora uma personagem criada por Henry James em A fera na selva, e quem por toda a sua vida acreditara que o seu destino seria como uma fera na selva, que algo grande e muito importante estaria para acontecer na sua vida, algo tremendamente avassalador, algo que como uma fera que duma qualquer selva saltaria de um qualquer repente e lhe transformaria o mundo pessoal e particular para sempre. Era esse o seu destino, o seu imaginado e esperado destino. Mas ao contrário de John Marcher eu sabia, há muito, que não haveria fera, apenas selva, apenas nada.
Por favor! Apelou ele mais uma vez, mais uma veemente vez, como tantas outras sem fraquejar. Era de louvar, estupidamente ridículo, mas de louvar. Durante todo este tempo eu respirei por ti, e para quê? De que me vale? Pensei.
De supetão a mesa desapareceu, os pratos e os copos, os líquidos e os sólidos, tudo se transformou em névoa e os nossos corpos deitavam-se numa cama macia sem contornos definidos.
O seu corpo despido convidava à contemplação, ao toque, mas quando ousei pousar a mão naquela pele violentamente pálida, e que eu julgara conhecer de memória, um arrepio percorreu-me a matéria e assombrou-me o que para lá dela pairava.
Gelado, estás gelado! Gritei-lhe como se a loucura se houvesse apossado definitivamente de mim. Talvez houvesse fera, afinal, talvez, e ao contrário de John Marcher que nela acreditara e por ela esperara, eu que a menosprezara e a negara mais que três vezes, talvez tivesse uma fera muito própria e muito minha à minha espera.
Ele olhou-me como se não tivesse ouvido os meus gritos mas sim os meus pensamentos. No olhar havia uma terrível compaixão, na expressão uma inexplicável condescendência. Era como se tivesse estado a noite toda à espera daquele momento, e como se o houvesse ensaiado e repetido incontáveis e cruéis vezes.
Inspira e expira, tens de respirar para continuar a viver… Disse-me ele, suavemente, como um leve e repetitivo sussurro, como um sopro cansado e cansativo.
Abri os olhos, os olhos que até então julgara abertos e não fechados. Era de manhã.

Sónia Ferraz da Cunha