segunda-feira, 16 de junho de 2014

Do espaço 'sagrado'




Se queres saber o porquê de alguma coisa, tenta recriá-la. Há muito ele se esquecera de quem lhe dissera aquelas palavras e, no entanto, tantas vezes vivera à altura delas e tantas vezes pensara nelas. Talvez lhe tivessem sido sussurradas em dias em que o seu sorriso ainda sincero e inocente se sobrepunha à necessidade de o controlar, talvez, e por isso as palavras não passassem agora de um eco.
Com os anos o seu sorriso tornara-se cruel, perverso, tal como o seu olhar, ele sabia, e por isso se questionava se seria essa a razão pela qual, naquele local, as pessoas se esforçavam por evitar o seu olhar tão veementemente. Ou talvez a razão fosse outra, talvez lhe conseguissem adivinhar os pecados e se sentissem aterrorizadas com a sua presença, ou talvez lhe invejassem a beleza e a juventude e lhe desconhecessem a pérfida decadência de ambas, talvez…
A culpa é tua… Do autor destas palavras ele recordava-se com penosa exatidão, e do muito que estas lhe haviam moldado o caráter, e do outro muito que ele se esforçava por viver ao som delas. A culpa fora dele, continuava a ser e sempre seria, e enquanto assim fosse jamais alguém voltaria a conseguir atingi-lo.
Contudo ao rasto de sofrimento que ia deixando pelo caminho ele não era totalmente insensível, mas o hábito e o aborrecimento iam-lhe gelando progressivamente os sentidos.
E como se sentia aborrecido! Já não havia nada de novo, qualquer nova experiência trazia-lhe apenas sensações que não eram senão meras repetições enfadonhas de uma qualquer outra experiência, e a estrita lucidez que a si próprio se impunha impediam-no a novas sensações ainda que ilusórias. Apenas nela ele mantinha a esperança de quebrar a terrível escalada de aborrecimento, mas teria de esperar e ser paciente, e esperar…
Apoiando os antebraços no banco deixou a cabeça descair libertando um profundo suspiro, e colando o olhar à abóbada da igreja sentiu um intenso cheiro de velas a queimar; pouco depois os seus sentidos foram perturbados por uma voz suave que se sentia cheia de compaixão.
“Meu rapaz, podemos conversar um bocadinho?” E sem esperar a resposta dele, o senhor padre sentou-se ao seu lado, atitude que lhe despertou grande curiosidade e divertimento.
“Claro, e qual seria o tópico da nossa conversa?” Por várias vezes já tinha avistado o sacerdote, figura assaz humilde e pouco atraente, contudo, até àquele dia, e ainda que lhe dedicasse alguns olhares, este nunca se atrevera a uma aproximação.
“Há muito tempo que reparo como o jovem vem todas as semanas a esta igreja, sempre à quinta-feira, e aqui fica a meditar, por vezes com um ar triste, mas nunca fica para o serviço religioso. E eu sinto que talvez precise de ajuda, talvez uma confissão?”
Às palavras do senhor padre ele não evitou uma dura gargalhada pelo muito presunçosas que lhe soaram e sobretudo pelo muito que o irritaram. Com ar triste, como se atreve, pensou com desprezo.
“Presume de mais senhor padre, você e a sua Igreja. Confessar os pecados implica que quem os confessa se sinta arrependido destes, mas eu vivo para os meus pecados e jamais me arrependerei deles, pois não há razão para isso.”
“Pois, mas a experiência diz-me que muitas vezes por detrás de palavras e atitudes duras se esconde uma grande dor. Eu só quero que saibas que em mim encontrarás apoio sempre que o desejares, tal como em Deus e Na sua casa, onde todas as semanas vens procurar conforto.”
Desta vez as palavras do sacerdote lançaram-no numa enfurecida revolta que o obrigou a erguer o corpo do banco. Como se atrevia este a assumir que ele necessitaria de ajuda, e para mais da sua ajuda?
“Eu não preciso da sua ou da ajuda de ninguém. Aquilo que me traz aqui não é senão o desprezo que sinto pela vida e pelas pessoas, e sobretudo a incompreensão."
"Incompreensão?" Repetiu confuso o sacerdote.
"Sim! Como pode um ser criar algo tão belo e grandioso como esta igreja e toda a arte que ela contém, e depois vergar-se a um deus prepotente e vingativo por ele criado, num reino de ignorância, violência e intolerância?”
Ele não esperou pela resposta do sacerdote, nem se preocupou com os olhares daqueles que lhe haviam escutado o discurso, e voltando-lhe as costas dirigiu os seus passos para o exterior da igreja. Mas nem mesmo ele conseguiu evitar sentir o desagradável travo a fel deixado pelas suas palavras de exagerada arrogância, e cuja fúria nascera da sua necessidade em esconder a verdadeira razão pela qual todas as semanas para ali se encaminhava.

Sónia Ferraz da Cunha