quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Queria não Querer



Queria poder fugir para longe do meu corpo. Segurar outras mãos, voar livre da minha consciência. Queria dançar com pernas que não as minhas, sorrir com lábios de outrem. Queria que outros pés me levassem para longe e outros olhos vissem mais que estes que trago cegos. 
Queria ser o que não sou, ou ser apenas nada e nada ter que ser. Queria apagar os sonhos e misturar os desejos com o esquecimento. Queria viver uma impossibilidade só para fugir do que é possível. Queria que houvesse mais tempo escondido e menos certeza de que preciso dele. 
Queria não sentir esta inquietação que me incha as veias de veneno e vai escorrendo por onde consegue. Queria que tudo parasse, se calasse, queria descobrir que na quietude há paz.
Queria não querer tudo o que quero, e simplesmente contentar-me com o que o convencional acha que devo. E a saber, queria apenas não saber que a cada dia que passa menos sei e mais confusas e incertas se tornam as certezas.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Julius Von Klever (1850-1924) Erlkönig; around 1887

domingo, 13 de novembro de 2016

A Multidão


No meio daquela multidão tão barulhenta até os surdos eram capazes de ouvir. Esmagados e exasperados até os cegos julgavam ver. E sem ter para onde fugir até os insensíveis sentiam. Os crentes esgotavam as rezas e os não-crentes rendiam-se à retórica vazia das crenças. 
Havia um mal comum entre a multidão que a todos afligia e a todos tornava incapazes. Era a consciência de serem multidão. Não o soubessem e alegremente continuariam a caminhar surdos, cegos, insensíveis. 
Mas a consciência apenas lhes dava a certeza de existir, e para além disso, nada mais. Apenas incertezas, questões que ninguém sabia responder. Tinham a consciência de existir e sofriam por isso. 
Como a marcha dos ignorantes não abrandasse, os mais agressivos acotovelavam os seus semelhantes tentando ganhar espaço. Queriam respirar, ser livres do suor dos que os acompanhavam e se roçavam impiedosamente na pele deles. 
Alguns caiam e iam ficando para trás, para sistematicamente serem espezinhados pela multidão. Ninguém parecia notar ou demonstrar qualquer perturbação, e a marcha rapidamente retomava o ritmo. 
Entre escaramuças e períodos de paz a multidão acabou por chegar ao fim da estrada, sem conseguirem ir para além da consciência de existir, e sem perceberem que esta acabava num precipício. 
E assim, dormente de ignorância e estupidez, a multidão foi-se deixando engolir pelo precipício. Aos poucos todos desapareceram, a estrada ficou em silêncio e a luz voltou a brilhar.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Fabio Mesa, Buscadores de sueños (Dream Seekers)

terça-feira, 19 de julho de 2016

Quando assim a viu passar


Deixou-se ficar, imóvel, como se o tempo já não importasse assim tanto. 
Deixou-se ficar e devagarinho enlevar por quem à sua volta o vento levantava
Era cómodo observar, era mais fácil ficar a ver e de leve, como quem sabe que ninguém percebe, esboçar sorrisos dissimulados quando alguém tropeçava, ou outro assim mais não se levantava. 
Deixou-se ficar até que ela passou. 
Caminhava como se dançasse, mas na simplicidade com que o fazia punha cuidadoso desvelo. Eram cândidos os seus gestos, mas se assim seria o coração também, era incógnita de difícil desvenda. 
Ficou na dúvida se a seguiria. Por que não, afinal? Que mal poderia dali advir? 
Ela caminhava devagar, como quem pesa cada passo por medo de cair. 
Ela sentiu-lhe o olhar e desviou o seu da calçada para que embatesse no de quem assim a observava. 
Fingiu surpresa e corou de emoção, e como quem convida sem o fazer ainda assim, sorriu a quem de longe lhe lançava olhares de admiração. 
Estendeu-lhe a mão, mas quando quem até então se prostrara em profunda e imutável observação se predispunha a corresponder a tão inesperado convite, eis que um outro que de longe chegara entretanto, nela tropeça e com ela cai no chão. 
Quem assim se mantinha imóvel e displicente para com o tempo, assim se manteve sorrindo de quando em quando, daqueles que via caírem e não mais se levantarem do chão.

Sónia Ferraz da Cunha
ImagemIsabelle Huppert

quinta-feira, 24 de março de 2016

Entrar ou sair


Entrava e saía, voltava a entrar e depois saía outra vez. Queria poder estar lá dentro enquanto ficava cá fora. Gostava da sensação de estar num e noutro sítio, disso ou de se balancear entre os dois estados porque ambos lhe provocavam náuseas. Talvez odiasse um e outro, e apenas se esquecesse disso enquanto mudava de lugar.
Algum tempo atrás, não se lembrava se há uns minutos, horas, dias, meses ou anos, chegara a uma decisão final; escolhera sair ou entrar, mas já não se recordava qual o veredito.
Via-se incapaz de chamar à memória a conclusão a que chegara, como tal fazia testes. Entrava e saía. Aos poucos percebeu que o corpo se sentia cansado, talvez já andasse naquilo há séculos.
Subitamente acreditou lembrar-se que escolhera entrar, então entrou com vontade de ficar, mas sentiu-se asfixiar por falta de oxigénio. Então optou por sair, mas sentiu-se sufocar por excesso de oxigénio.
Por entre o seu buliçoso vai e vem distinguia como outros iam entrando e outros tantos saindo, e como uns e os outros se acomodavam de um ou de outro lado. Parecia fácil e todos se viam felizes.
Era simples, portanto, só tinha que escolher entrar ou sair e fazê-lo em definitivo. Contudo, teria sido mais fácil criar um universo que finalizar aquele dilema.
Por que paraste? Pensas que se parares o tempo para contigo? Não sabia dizer se a questão viera do interior ou do exterior, nem tão-pouco de que interior ou que exterior, pois talvez tivesse nascido na sua própria cabeça.
Mas aos poucos e a espaços, de dentro e de fora escutavam-se outras interrogações, outras sentenças, recriminações, avisos, chamamentos e acusações, que apenas acrescentavam confusão à sua mente onde a perturbação há muito se instalara.
Era um marulhar de vozes sem fim.
Devias ter entrado quando ainda eras jovem
Devias ter saído quando tiveste oportunidade
Agora é tarde
Ainda há tempo
Vem cá para dentro
Sai
Entra
Sabia que se continuasse a ouvir aquelas vozes enlouqueceria, ou pior, perderia de vista a sua vontade. Vontade à qual há muito desconhecia a tendência.
Há muito arrastava a indecisão, a dúvida. Há muito que hesitar se tornara num hábito. Então chegou a uma nova decisão. Havia apenas uma solução, e era voltar ao estado inicial, ao momento em que começara toda aquela loucura. Retrocederia até ao 0 e aí saberia o que fazer. Mas havia um problema - já não se recordava de qual fora o estado inicial.


Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Gérard Uféras, Orphée et Eurydice de Pina Bausch, ballet de l’Opéra National de Paris

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O dia do fim


No dia em que o coração saltou um batimento e a cabeça não se importou soube que a luta acabara; tinha sido derrotado. Já não havia desespero ou medo, já não havia emoção. Estava vazio, seco, oco. Apenas restava desapego e uma visão que perturbada não distinguia senão borrões. Algo lhe sugara o que outrora abundara, e fosse o que fosse, jazia também a uma esquina daquele lugar.
De espírito inquisitivo ponderou qual a verdadeira razão pela qual não se havia incomodado com o coração que já não batia certeiro. Estaria realmente desprovido de emoções? Seria isso mau? Mas ver para além da parcial cegueira que aflige é quase impossível, então tentou focar naquilo que lhe sugara o que outrora abundara e cego ficou completamente.
A falta dos olhos também não o afligiu, e antes pareceu-lhe até útil. Agora não via o que não sentia e não sentia nada. Mas o coração continuava a bombear, metrónomo instrumento, absurdo contratempo. O sangue corria pelo corpo pedindo em desespero por liberdade. E ele, atendendo ao pedido, arrancou-o das veias e deixou-o vaguear em abundância por aquele lugar.

Sónia Ferraz da Cunha

sábado, 23 de janeiro de 2016

A morte é o meu talismã


E se tudo o que existe seja isto, e se os cínicos tiverem razão e as consciências se apagam assim que a matéria perde o favor da vida? E se para além disto houver apenas silêncio eterno, nada, o vazio que assusta e atormenta apenas. E se para além da dor não existir nada? E se para além da vida houver apenas morte? Consegues imaginar o nada? Não, eu também não. Será o vácuo o último dos nossos destinos? Será o nada o que nos espera? Num último fio de vida acende-se a luz do que passou, tudo e todos serpenteiam ante os teus olhos, tudo e todos exceto o que te espera. E assim que a luz se apaga, vem a escuridão. Deixas de pensar, de sentir, deixas de existir e tudo o que evoluíste até então, tudo o que aprendeste até esse momento, perde-se em menos de uma batida de um coração que não mais pulsará! Será assim? E se assim é, por que choras agora? E se assim é, porque morres em vez de viver? Por que te matas, te consomes, te recusas a viver? Não me olhes como a um monstro se o monstro não vive senão no deserto que é a tua estupidez. Mas não é a tua inconsciência que merece reprovação, pois maldita é a consciência que atormenta e inquieta os espíritos que nunca dormem. Essa ignóbil criação da matéria que a tão poucos rouba a inocência. Descansa na tua pureza, ó doce dormência, e morre na ignorância, pois só assim morrerás feliz.

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Bela Lugosi do filme The Raven (1935)

terça-feira, 28 de julho de 2015

Porquê?


Por que adornas o corpo com tão brilhantes adereços e permites que a alma se asfixie no lixo?
Por que esbugalhas os olhos quando te apresentam ficção e os cerras estupidamente perante a realidade?
Por que pulsa o teu coração se o teu cérebro há muito adormeceu por completo?
Por que corres contra o tempo se não te fazes capaz de o aproveitar?
Por que enches as entranhas com a gula se há muito estas apodreceram?
Por que te queixas, pedes, imploras, pensas que sofres talvez, quando por ti sofrem muito mais, quando por ti se mata, mutila, esventra, tortura, aniquila, extingue?
Porquê?
Eu digo-te o porquê.
Porque não te questionas. Porque és um ser ignóbil, um imbecil patético e acabado.
Porque calas, consentes, aceitas e és cobarde.
Porque sofres de idiotice crónica e quando assim não é, pior se apresenta a equação.
Porque te foi dado o dom, o poder, a capacidade, e o que fazes tu?
Definha até à morte nessa tua perpétua existência que nada é, que nada faz, que nada fará, que nada representa.
A tua inutilidade rapidamente será esquecida, contudo, o rasto de miséria, sangue, dor, e esse cheiro a morte putrefacta jamais será apagado.
E enquanto deres os últimos e definitivos passos rumo ao inferno que te aguarda, espero que num último sopro de consciência escutes os gritos, as súplicas, os uivos, os grunhidos, os lamentos abafados pela ausência dessa consciência, de ética, de moral, de coração, de alma, de sentimentos, de emoções, pela falta de tudo onde nunca faltou crueldade.

Sónia Ferraz da Cunha

sábado, 18 de julho de 2015

A Sinfonia dos Moribundos


A noite corria negra, vazia, eterna e no seu bafo gelado e seco, corpos eram copiosamente atirados ao acaso, empilhados sem cuidado, separados em descuido. Por entre gritos agonizantes, suspiros rasgavam a pungência com a sua suavidade, uma delicadeza de quem definha, fraqueza de moribundo.
Ajuda-nos, Por favor, ajuda-me!
Por entre rezas indecifráveis, um choro anunciava que mais uma criatura nascia para as trevas. A sinfonia era rigorosa e ininterruptamente interpretada, sem alegretos, allegros ou prestos.
O vento soprava com violência e afincava a sua supremacia cortando a pele, a carne, o osso, por vezes as entranhas, definitivamente a alma. Do bafo gelado da noite saíam agora lâminas afiadas que rapidamente se viam pingentes de sangue.
Os gritos, as preces, os murmúrios desesperados, as pragas rogadas, as blasfémias proferidas aos privilegiados pertenciam, enquanto os mudos, os inarticulados se agarravam aos ouvidos encolhendo-se, diminuindo de tamanho, acocorados, apertados contra si mesmos no chão imundo pelas suas dores, pelo seu sangue, pelos seus excrementos.
Das entranhas geladas e negras da noite vazava um novo ser que pela primeira vez via as trevas, e eu perguntei aos olhos que tudo viam, aos ouvidos que tudo ouviam, aos braços que nada faziam e à boca que assim calava.
Porquê?
Ao som daquela palavra, os olhos que tudo viam rodaram lentamente e sobre mim pousaram, gelados, vazios, negros e eternos. A boca que assim calava sofreu um sardónico sorriso, e abrindo-se lentamente, sentenciou:
Pensas demais, vai dormir!

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Lithops - Nicola Samori

quarta-feira, 17 de junho de 2015

As Mãos e a Cabeça


Havia sempre qualquer coisa, e aqui a utilização do ‘sempre’ tornava-se inevitável.
Havia sempre qualquer coisa, dizia, pensava, desabafava à luz que perpassava através de uma janela e que tão tímida se tornara. Fossem uma palavra desconcertada ou infinitas afirmações que baralhavam, confundiam, atrapalhavam, tudo se acumulava em segundos e em menos que isso lhe prostravam o discernimento.
Levou as mãos à cabeça, cobriu com elas os ouvidos, afinal havia muito mais que qualquer coisa e o barulho ensurdecedor de todas essas coisas enfureceu-lhe os pensamentos, e cravou-lhe no peito despiedadas e pungentes dores despidas de crime.
Ousara clamar por paz, como se lhe fosse dado o esperar por clemência, como se houvesse quem – visível ou invisível – prestasse tal clemência. Mas a fantasia, como tudo o demais, tem limites, e todos sabem que se ultrapassados esses limites corre-se o risco que agora aquelas mãos furiosamente enterradas nos cabelos daquela cabeça viviam – a loucura!
Mas se todos sabiam, todos poderiam ter-lhe feito saber do que havia para saber. Todos poderiam com aquelas mãos e aquela cabeça, ter partilhado da sua imensa sabedoria.
Mas para aquelas mãos e aquela cabeça, os todos não eram senão ilustres desconhecidos, ou imundos conhecidos, ou apenas um par de olhos incisivos que ao mesmo tempo olham apáticos, como querendo dizer algo e, no entanto, nada dizendo, em paz descansam no seu próprio silêncio.
As mãos soltaram a cabeça. Aos poucos a escuridão venceu a tímida e resiliente luz, da mesma forma que o conformismo à loucura acabaria por vencer a pouca e tímida lucidez que ainda sobrevivia naquela cabeça. 

Sónia Ferraz da Cunha
Imagem: Peter Hardstone, Sorrow, 1991